terça-feira, 22 de setembro de 2015

RESÍDUOS SÓLIDOS: VAMOS PENSAR UM POUCO?


* Publicado no Jornal Carta Serrana.
  Informação ao Pé da Letra.  
Edição 31. Agosto de 2015.
Direção Geral: Olivério Chagas


Em 2014, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) apresentou o panorama dos resíduos sólidos no Brasil. De acordo com a pesquisa, 58,4 % dos resíduos foram destinados a aterros sanitários e o restante (41,6%) para lixões ou aterros controlados, que não possuíam estrutura adequada para proteção do meio ambiente contra degradações.
Lixão situado no povoado Terra Dura em Itabaiana-Se. Fonte: www.jornaldodiase.com.br
A geração de resíduos e rejeitos é maior do que o crescimento demográfico (aumento da população) do País. Os dados apresentados em 2014 pela Abrelpe indicaram que a produção de resíduos sólidos urbanos foi de 78,6 milhões de toneladas. Isso representa um aumento de 2,9% de um ano para outro, índice superior à taxa de crescimento populacional do País no período, que foi de 0,9%.
Mas o que são resíduos sólidos e rejeitos?
De acordo com o Plano Nacional de Resíduos Sólidos de 2012, consideram-se resíduos sólidos qualquer material, objeto, substancia ou bem descartado resultante de ações humanas em sociedade cuja destinação final se procede, se propõe proceder ou se está obrigado a proceder. Esses resíduos podem estar nos estados sólido ou semissólido, líquido ou gasoso (gases contidos em algum recipiente) que tornem seu lançamento na rede pública de esgotos ou corpos d'água inviáveis ou que para isso exijam soluções técnicas ou economicamente inviáveis. Já rejeitos são resíduos sólidos que não apresentem outra possibilidade que não a disposição final ambientalmente adequada, quando todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis e economicamente viáveis forem esgotadas.
Os resíduos sólidos e os rejeitos, quando depositados de forma inadequada, geram impactos significativos ao meio ambiente. Alguns exemplos desses impactos são a poluição do ar e do solo pelo gás metano (CH4) e a contaminação de lençóis freáticos (águas subterrâneas) pelo chorume.
Quando atinge o solo e as águas, o chorume introduz substâncias orgânicas como carbono e nitrogênio, e materiais inorgânicos, a exemplo do cádmo, mercúrio e chumbo, que afetam todo o ecossistema.
As consequências da deposição inadequada de resíduos sólidos afetam diretamente a sociedade, pois contribuem para o adoecimento da população. O contato com resíduos contaminados colabora para o aumento de doenças, acarretando despesas para a saúde pública. Além disso, os prejuízos ambientais, a depender da intensidade do impacto provocado, têm valores incalculáveis para o meio ambiente.
A busca por alternativas, para a presente questão, continua a desafiar os governantes de vários países. A geração de resíduos e rejeitos é inevitável, à medida que consumo desenfreado alimenta o processo.
Para se ter uma ideia a população brasileira hoje conta com um número de aproximadamente 204 milhões de habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A facilidade de acesso às linhas de crédito e as formas de pagamento parcelado têm facilitado o acesso a produtos diversos, inclusive por pessoas que possuem baixa renda.
Aliado a isso, existe uma grande dificuldade em se educar as pessoas para o consumo sustentável, considerando que o sistema cria vítimas das obsolescências perceptiva e planejada. Alguns produtos são comprados sem necessidade específica e descartados com rapidez. A ausência de reflexão faz com que as pessoas sejam conduzidas ao fast-food do consumo, administrado pela mídia.
De fato, na sociedade capitalista é impossível deixar de consumir e gerar resíduos. Mas, seria possível estabelecer um link entre os fatores sociais, econômicos e ambientais em prol do meio ambiente? Em países como a Suécia, sim.
Segundo José Eduardo Mendonça, colunista da revista eletrônica Planeta Sustentável, a tradição de reciclar ou incinerar os resíduos para produção de energia fez com que a Suécia passasse a importar resíduos.  Essa importação é feita de países como Alemanha, Bélgica e Holanda, seguindo as normas europeias e suecas de importação.
O Brasil, como um país emergente, ainda não conseguiu solucionar alguns problemas básicos. Um exemplo disso é o não cumprimento da Lei Federal 12.305/2010 da Política Nacional de Resíduos Sólidos, no que se refere à extinção dos lixões a céu aberto e à implantação da reciclagem, reuso, compostagem, tratamento do lixo e coleta seletiva nos municípios. Essa lei dava prazo de quatro anos para que as cidades se adequassem a tais exigências, portanto deveria estar em vigor em 2014. Para o espanto de alguns brasileiros, uma emenda apresentada no Plenário estabeleceu novos prazos e as datas-limite que devem variar entre 2018 e 2021.
Em quanto isso lixões, semelhantes ao do povoado Terra Dura, situado na zona rural do município de Itabaiana-SE, continuarão a existir, afetando a saúde de pessoas e animais, poluindo e contaminando o solo, a água e o ar. Mas não tem problema. Submissa à vontade humana, o meio ambiente aprendeu a esperar por providências que deveriam ser urgentes.
Diante da questão discutida, cabe a cada indivíduo e à sociedade como um todo ter responsabilidade pelos resíduos que gera. Para que um dia a sociedade seja sustentável e as pessoas capazes de consumir de forma consciente; refletir sobre a necessidade de consumo; repensar atitudes; reduzir os resíduos que gera; reutilizar as coisas que são úteis e quando necessário reciclar, não apenas as coisas, mas suas ações diárias.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A ÁGUA NOSSA DE CADA DIA

* Publicado no Jornal Carta Serrana.
  Informação ao Pé da Letra.  
Edição 30. Julho de 2015.
Direção Geral: Olivério Chagas

Em um dia comum você se alimenta, faz higiene bucal, lava a louça, toma banho, trabalha, estuda, utiliza o sanitário, lava o carro, assiste TV,  faz compras, acessa a internet e lava a roupa. Seria possível fazer tudo isso sem água? Pois é, direta ou indiretamente utilizamos água em  nossas atividades diárias.
Mas, o que é a água? Água é uma substância formada por moléculas que são  constituídas pela junção de pequenas partículas chamadas átomos. Uma molécula de água é formada por 2 átomos de Hidrogênio (H) e 1 de Oxigênio (O), sendo sua fórmula química H2O. Para você ter uma ideia, em uma gota de água existem bilhões dessas moléculas.
A água é o recurso natural mais abundante em nosso planeta. A hidrosfera terrestre é composta pelos oceanos, mares, lagos, rios e as águas subterrâneas (lençóis freáticos). Dessa água, aproximadamente, 1% é doce.
Assim como o planeta, a maior parte do corpo humano é constituída por água, em média 70% (adulto saudável). No corpo humano, a água garante o funcionamento adequado do organismo como um todo, atuando na regulação da temperatura corpórea, na realização da maioria das reações químicas, na eliminação de substancias tóxicas, na composição de células, tecidos e órgãos,  entre outras funções.
Quando se fala em água, a primeira imagem que construímos em nossas mentes é a de seu estado líquido, mais abundante em nosso planeta. Mas sabemos que existe água no estado sólido (gelo), observado nas regiões mais frias do globo e no estado gasoso (vapor), presente na atmosfera.
Esses estados da água podem mudar conforme as alterações da temperatura, a saber: a) estado líquido, entre 0 e 100º C; b) estado gasoso, acima de 100 ºC; e c) estado sólido, abaixo de 0º C.
 Alguns exemplos dessas mudanças podem ser observados no dia a dia como: o derretimento do gelo (fusão: do estado sólido para o líquido); a roupa secando no varal (evaporação: do líquido para o gasoso); a água borbulhando na panela enquanto ferve (ebulição: do líquido para o gasoso a temperaturas elevadas); quando colocamos a água para congelar (solidificação: do líquido para o sólido); um copo de refrigerante gelado transpirando (condensação: do gasoso para o líquido).
As mudanças de estado físico da água também fazem parte do Ciclo Hidrológico (Ciclo da Água). Por meio da evaporação, as gotículas de água (em forma de vapor ) se misturam ao ar e são conduzidas para atmosfera formando as nuvens. Ao atingir altas altitudes, ou encontrar massas de ar frio, o vapor de água condensa transformando-se em água líquida. Essa água se precipita formando assim, a chuva. Uma parte da  água da chuva retorna aos corpos d'água e a outra infiltra-se no solo.
Uma das mais bonitas canções do cantor e compositor Guilherme Arantes, "Planeta Água", descreve poeticamente o Ciclo da água. Essa música lançada em 1981, pode ser considerada o hino da preservação das águas.

Fonte: http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Agua/Agua5.php
Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre um profundo grotão
Água que faz inocente riacho e deságua na corrente do ribeirão
Águas escuras dos rios que levam a fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias e matam a sede da população
Águas que caem das pedras no véu das cascatas, ronco de trovão
E depois dormem tranquilas no leito dos lagos, no leito dos lagos
...
Água dos igarapés, onde Iara, a mãe d'água é misteriosa canção
Água que o sol evapora, pro céu vai embora, virar nuvem de algodão
Gotas de água da chuva, alegre arco-íris sobre a plantação
Gotas de água da chuva, tão tristes, são lágrimas na inundação
Águas que movem moinhos são as mesmas águas que encharcam o chão
E sempre voltam humildes pro fundo da terra, pro fundo da terra

Terra, planeta água
Terra, planeta água

De fato, a existência do Ciclo da Água assegura que esse recurso não irá acabar. Assim como afirmou o engenheiro Léo Heller da Universidade Federal de Minas Gerais, a quantidade de água no planeta é a mesma nos últimos milênios. O grande problema da água está relacionado a sua qualidade e a pouca quantidade de água potável disponível para o consumo humano.
Quando a qualidade da água captada diminui os gastos com o tratamento aumentam. Isso reflete diretamente no bolso do consumidor. Apesar disso, a degradação dos corpos d'água vêm sendo apontada como a principal consequência de ações geradoras de impactos ambientais que afetam o Ciclo Hidrológico e a qualidade da água.
O livro "O menino e o rio" do escritor Ângelo Machado aborda a problemática degradação dos rios, as consequências para o ambiente e para a saúde humana. A história se inicia em uma sala de aula, quando um aluno pergunta ao professor careca: - Por que todos os rios são sujos? O professor não quis responder. Achou melhor que o menino procurasse a resposta. O menino saí a procura de um rio limpo, juntamente com seu amigo  Mico (saguim) e no caminho encontra o poeta e o pescador que também estavam a procura de um rio limpo. Se ficou curioso (a) para saber o final da história sugiro a leitura, assim como um professor cabeludo me orientou um dia... (veja as referências).
Fonte: http://www.csmbh.com.br/livros6ano.htm

Rio, rio, rio limpo
                     o mundo está todo sujo                     
e querendo te sujar.
Não mistures tuas águas
com águas de outro lugar
...
Entretanto, rio limpo
se quiseres viajar
permite que eu vá contigo
pra que eu possa te ajudar.
Leva este poeta amigo
em tuas águas, para o mar.
O fato de continuarmos despejando dejetos, ignorando as demais formas de vida e desrespeitando o tempo que o ambiente aquático  necessita para se recuperar (processo de resiliência), significa que estamos, conscientemente, cavando a nossa própria sepultura. Se nos omitimos diante da degradação das águas somos cúmplices desse crime contra a vida.
Os problemas relacionados à água são diversos, carecem aprofundamento e reflexão. Em outra oportunidade destacaremos outros pontos relevantes da questão.



 REFERÊNCIAS

Ângelo Machado. O menino e o rio. 18º Edição. Editora LE, 1989.

Vanessa Sardinha dos Santos. Funções da água no corpo humano. Mundo Educação. Disponível em <http://www.mundoeducacao.com/biologia/funcoes-agua-no-corpo-humano.htm>.
Investigação para a Sustentabilidade. Lneg. As aventuras e desventuras de uma pequena gota d'água. Disponível em http://www.lneg.pt/CienciaParaTodos/edicoes_online/diversos/guiao_gota_agua/texto.
Layolle Carvalho. O surgimento da água no planeta Terra. Sala Verde. Universidade Federal da Bahia (UFBA). Disponível em https://salaverdeufba.wordpress.com/2013/05/03/o-surgimento-da-agua-no-planeta-terra/
Ciência Hoje das crianças. Por que a água borbulha quando ferve?  Disponível em http://chc.cienciahoje.uol.com.br
Luiz Souza. A água é um recurso natural esgotável. 



AGROTÓXICOS: O SILENCIAR DAS VOZES DA PRIMAVERA

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* Publicado no Jornal Carta Serrana.
  Informação ao Pé da Letra.  
Edição 28. Maio de 2015.
Direção Geral: Olivério Chagas

Alimentação é o processo por meio do qual os seres heterótrofos adquirem a energia e os nutrientes necessários para o funcionamento adequado de seus organismos. Para os seres humanos, esse processo também consiste em uma prática socialmente construída que deve estar voltada para o consumo de alimentos de boa qualidade, nutritivos e acessíveis ao bolso do consumidor.
A produção de alimentos visa suprir a necessidade de consumo e é impulsionada pelo crescimento populacional. Aliados a isso, os avanços tecno-científicos possibilitam o incremento de novas práticas e técnicas agrícolas, sendo a produção de agrotóxicos a mais significativa delas.
De acordo com a Lei No 7.802 de 1989 são agrotóxicos e afins os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos (BRASIL, 1989, p. 01).
Na agricultura, a utilização de agrotóxicos foi incrementada após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Antes disso, os inseticidas utilizados derivavam de minerais que ocorrem na natureza e de produtos extraídos de plantas.
A descoberta dos inseticidas sintéticos ocorreu durante a realização de experimentos com insetos que serviam como cobaias para testar agentes químicos que seriam utilizados na Guerra. Essa grande descoberta científica possibilitou avanços agrícolas significativos, no que se refere a exterminação de “pragas”, e contribuiu para o aumento da produção de alimentos.
Para atender aos interesses da indústria química, os inseticidas foram amplamente divulgados na mídia. Vendia-se a imagem de um produto salvador, que além de revolucionar a produção de alimentos, seria capaz de prevenir doenças e auxiliar na manutenção da saúde das pessoas.  
Na época, os estudos científicos realizados com animais e plantas mostraram a contaminação dos exemplares estudados. Havia sido constatado o poder de envenenamento, a alteração no funcionamento normal dos organismos vivos, a destruição de enzimas e modificações celulares. Por conseguinte, a contaminação do meio ambiente era evidente, sendo observados resíduos químicos, inclusive, em rios, lençóis freáticos (águas subterrâneas) e no leite materno.
Fonte: https://whyevolutionistrue.wordpress.com


A preocupação com a presente problemática socioambiental foi intensificada a partir da década de 60. Nessa década a cientista, ecologista e escritora, Rachel Carson (1907-1964) publicou, no ano de 1962, sua obra mais famosa intitulada de Primavera Silenciosa (Silent spring) que chamava a atenção do mundo para os perigos do uso indiscriminado de inseticidas sintéticos.
Alvo de público e crítica, a obra desafiou os cientistas agrícolas, o governo e a indústria química, pois apresentava à sociedade as consequências negativas da utilização dos inseticidas para o meio ambiente.    
No primeiro capítulo do livro, por meio de uma fábula, a autora relata dois contextos distintos de uma cidade rural americana e chega a uma conclusão intrigante. O primeiro contexto menciona um ambiente harmônico, com flores, fazendas prosperas, campos de trigos, pomares e inúmeros pássaros que se alimentavam e dispersavam sementes. As pessoas também eram protagonistas, daquele cenário, muitas iam observar a paisagem e pescar nos rios de águas translúcidas e frias. O segundo contexto relata o ambiente, após a colonização, com o surgimento de uma doença desconhecida que havia provocado mudanças significativas naquela localidade. A doença misteriosa atingia plantas, animais e seres humanos. Os pássaros haviam sumido e um estranho silêncio pairava no ar. Até nos rios, a vida deixou de existir. Quem havia silenciado a vida naquele lugar? Algum inimigo? Nada disso, havia sido as próprias pessoas, por meio da utilização descontrolada de inseticidas. 
A médio prazo, a tragédia descrita na fábula poderia se tornar real, pois alguns dos episódios descritos já estavam acontecendo em cidades dos Estados Unidos da América (EUA) provocados pelo uso intensivo do Diclo - difenil - tricloroetano (DDT), um agrotóxico persistente no meio ambiente que contaminava e se acumulava nos organismos, sendo repassado via cadeia alimentar.
Travou-se uma verdadeira guerra contra a utilização de DDT, a nível mundial, e sua proibição nos EUA se deu na década de 70. As consequências do DDT sob os organismos e o ambiente são constatadas até hoje. O estudo realizado em 2014, pela equipe de Jason Richardson, da Universidade Rutgers (EUA), encontrou níveis elevados de subprodutos do DDT no sangue de portadores de Alzheimer em fase avançada. Os participantes do estudo tinham em média 74 anos.
Apesar disso, o composto ainda é usado legal ou ilegalmente em vários países. No Brasil, maior consumidor de agrotóxicos do mundo, a proibição chegou a passos lentos. O DDT foi retirado do mercado brasileiro por meio de três medidas, a saber: a proibição para o uso agrícola, em 1985; a proibição para o uso em campanhas de saúde pública, em 1998; e a Lei nº 11.936/09, proveniente do projeto de lei (PLS 416/99) do senador Tião Viana (PT-Acre), sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no ano de 2009. Essa Lei proíbe a fabricação, a importação, a exportação, a manutenção em estoque, a comercialização e o uso de DDT, no país.
Embora existam esforços para minimizar a problemática, a utilização excessiva de agrotóxicos no Brasil persiste. Os filmes “O veneno está na mesa I” (2011) e “O veneno está na mesa II (2014)” de Silvio Tendler, abordam a questão de forma coerente. Os relatos e as contribuições de estudiosos enriquecem o conteúdo dos filmes, reforçando a necessidade de posicionamento por parte da sociedade.
Os perigos da má utilização dos agrotóxicos assemelham-se aos infortúnios dos inseticidas sintéticos da década de 60. Quando aplicados, os agrotóxicos podem atingir o solo e as águas, serem espalhados por meio do vento e das águas das chuvas. As propriedades dessas substancias podem sofrer alterações e formar subprodutos com propriedades diferentes do produto original, provocando danos ao meio ambiente. Por isso, o uso de agrotóxicos intensifica os riscos à saúde humana e ambiental, podendo provocar a contaminação do trabalhador, das populações que residem no entorno das lavouras e dos animais. Ainda assim, os produtores rurais continuam a utilizar os agrotóxicos indiscriminadamente.
Esse fato está associado aos fatores socioeconômicos que dificultam a execução de alternativas possíveis, como a substituição da produção tradicional de alimentos pela produção de orgânicos. A principal dificuldade para produção de orgânicos em grande escala consiste no pouco incentivo por parte dos governantes, o que torna o custo de produção alto e acaba por refletir no preço dos produtos.  Na tentativa de agradar aos grandes empresários, de atender as exigências do “mundo” econômico e de suprir as necessidades da população, por meio do barateamento dos gêneros alimentícios, a qualidade dos alimentos acaba ficando em segundo plano.
Ao cidadão esclarecido cabe manter o controle de sua alimentação, evitando o consumo de alimentos com grande quantidade de agrotóxicos e proteger, assim, sua saúde e a saúde de sua família.
 Em Itabaiana – SE a situação não é diferente, sendo que uma de suas principais atividades econômicas, é a agricultura tradicional. As pequenas propriedades agrícolas itabaianenses oferecem uma grande diversidade de produtos como mandioca, batata doce, frutas, hortícolas, cereais e verduras que abastecem o Estado.
A preocupação com problemática ambiental dos agrotóxicos do município motivou ações voltadas à agroecologia. Segundo informações da Associação dos Produtores Orgânicos do Agreste (ASPOAGRE), associação composta por 18 sócios agricultores dos municípios de Itabaiana, Areia Branca e Malhador, desde 1986 esse tipo de produção tem sido realizado. Os produtos orgânicos produzidos pela ASPOAGRE são revendidos, inclusive, em Itabaiana na Feira de Produtos Orgânicos, realizada com o apoio da Secretaria Municipal de Agricultura.
Em 2013, Itabaiana foi o primeiro município do interior sergipano a implantar o programa de Rastreamento e Monitoramento de Alimentos (RAMA). O RAMA é promovido pela ABRAS, com o apoio da ANVISA e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O programa acompanha a cadeia produtiva, possibilitando aos consumidores a obtenção de informações sobre a origem de alimentos como banana, laranja, alface, repolho entre outros.
Outra iniciativa relevante é o trabalho de Educação Ambiental com hortas escolares realizado em algumas escolas municipais da zona rural de Itabaiana, por meio do Programa Mais Educação do Ministério da Educação (MEC) e por iniciativa das equipes diretivas, professores e alunos, como foi observado na pesquisa de Souza (2014). Esse tipo de iniciativa carece de maiores incentivos e aprofundamento.
O trabalho com alimentação e hortas caseiras também é realizado, no município, pela Pastoral de Criança, organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nesse trabalho, os líderes voluntários recebem capacitação para promoção da alimentação saudável junto as famílias acompanhadas. As orientações vão desde os cuidados de conservação dos alimentos até o passo a passo de como fazer uma horta caseira, sem a utilização de agrotóxicos.
Ainda sem solução definitiva para o problema agrotóxicos, a garantia do direito à saúde de produtores, consumidores e do ambiente exige o aumento na fiscalização, por parte dos órgãos competentes, tendo em vista o cumprimento da Legislação. Além disso, a sensibilização para o cuidado individual e coletivo no meio ambiente torna-se indispensável. Não podemos permitir que a vozes da primavera sejam silenciadas.



REFERÊNCIAS
ANVISA. Lei proíbe agrotóxico DDT em todo o país. Disponível em http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2009/200509.htm

AGROECOLOGIA EM REDE. Associação dos Produtores Orgânicos do Agreste (APOAGRE). Disponível em

ABRAS. RAMA: Itabaiana é o primeiro município do interior de Sergipe a monitorar alimentos. Redação Portal ABRAS. Disponível em

BRASIL. Lei 7.802 de 1989. Disponível em: www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7802.htm

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Segurança Química. Agrotóxicos. Disponível em http://www.mma.gov.br/seguranca-quimica/agrotoxicos

CARSON, R. Primavera Silenciosa. Tradução de POLILLO, R. Edições Melhoramentos. São Paulo, 1969.

PASTORAL DA CRIANÇA. Alimentação e hortas caseiras na Pastoral da Criança. Curitiba, 2009. 64p.: il. col.

Rachel Carson's Biography. Disponível em http: www.rachelcarson.org .

SOUZA, S.M. dos S. As ações de Educação Ambientais em escolas rurais de Itabaiana-SE. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Sergipe, Aracaju-SE, 2014. Disponível em http://bdtd.ufs.br//.

TENDLER, S. O veneno está na mesa I (filme). Disponível em   https://www.youtube.com/watch?v=SHkRoIvahpg&spfreload=10

TENDLER, S. O veneno está na mesa II (filme). Agroecologia para alimentar o mundo com soberania. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4

VIERA, C. L. Pesticida e Alzheimer. Revista Ciência Hoje. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2014/03/pesticida-e-alzheimer

INFONET NOTÍCIAS. Itabaiana ganha feira de hortaliças sem agrotóxicos. Disponível em http://www.infonet.com.br/cidade/ler.asp?id=13105&titulo=cidade#












[1] Os seres heterótrofos são incapazes de produzir seu próprio alimento, por conseguinte, se alimentam de outros seres vivos (plantas e animais).