terça-feira, 1 de setembro de 2015

AGROTÓXICOS: O SILENCIAR DAS VOZES DA PRIMAVERA

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* Publicado no Jornal Carta Serrana.
  Informação ao Pé da Letra.  
Edição 28. Maio de 2015.
Direção Geral: Olivério Chagas

Alimentação é o processo por meio do qual os seres heterótrofos adquirem a energia e os nutrientes necessários para o funcionamento adequado de seus organismos. Para os seres humanos, esse processo também consiste em uma prática socialmente construída que deve estar voltada para o consumo de alimentos de boa qualidade, nutritivos e acessíveis ao bolso do consumidor.
A produção de alimentos visa suprir a necessidade de consumo e é impulsionada pelo crescimento populacional. Aliados a isso, os avanços tecno-científicos possibilitam o incremento de novas práticas e técnicas agrícolas, sendo a produção de agrotóxicos a mais significativa delas.
De acordo com a Lei No 7.802 de 1989 são agrotóxicos e afins os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos (BRASIL, 1989, p. 01).
Na agricultura, a utilização de agrotóxicos foi incrementada após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Antes disso, os inseticidas utilizados derivavam de minerais que ocorrem na natureza e de produtos extraídos de plantas.
A descoberta dos inseticidas sintéticos ocorreu durante a realização de experimentos com insetos que serviam como cobaias para testar agentes químicos que seriam utilizados na Guerra. Essa grande descoberta científica possibilitou avanços agrícolas significativos, no que se refere a exterminação de “pragas”, e contribuiu para o aumento da produção de alimentos.
Para atender aos interesses da indústria química, os inseticidas foram amplamente divulgados na mídia. Vendia-se a imagem de um produto salvador, que além de revolucionar a produção de alimentos, seria capaz de prevenir doenças e auxiliar na manutenção da saúde das pessoas.  
Na época, os estudos científicos realizados com animais e plantas mostraram a contaminação dos exemplares estudados. Havia sido constatado o poder de envenenamento, a alteração no funcionamento normal dos organismos vivos, a destruição de enzimas e modificações celulares. Por conseguinte, a contaminação do meio ambiente era evidente, sendo observados resíduos químicos, inclusive, em rios, lençóis freáticos (águas subterrâneas) e no leite materno.
Fonte: https://whyevolutionistrue.wordpress.com


A preocupação com a presente problemática socioambiental foi intensificada a partir da década de 60. Nessa década a cientista, ecologista e escritora, Rachel Carson (1907-1964) publicou, no ano de 1962, sua obra mais famosa intitulada de Primavera Silenciosa (Silent spring) que chamava a atenção do mundo para os perigos do uso indiscriminado de inseticidas sintéticos.
Alvo de público e crítica, a obra desafiou os cientistas agrícolas, o governo e a indústria química, pois apresentava à sociedade as consequências negativas da utilização dos inseticidas para o meio ambiente.    
No primeiro capítulo do livro, por meio de uma fábula, a autora relata dois contextos distintos de uma cidade rural americana e chega a uma conclusão intrigante. O primeiro contexto menciona um ambiente harmônico, com flores, fazendas prosperas, campos de trigos, pomares e inúmeros pássaros que se alimentavam e dispersavam sementes. As pessoas também eram protagonistas, daquele cenário, muitas iam observar a paisagem e pescar nos rios de águas translúcidas e frias. O segundo contexto relata o ambiente, após a colonização, com o surgimento de uma doença desconhecida que havia provocado mudanças significativas naquela localidade. A doença misteriosa atingia plantas, animais e seres humanos. Os pássaros haviam sumido e um estranho silêncio pairava no ar. Até nos rios, a vida deixou de existir. Quem havia silenciado a vida naquele lugar? Algum inimigo? Nada disso, havia sido as próprias pessoas, por meio da utilização descontrolada de inseticidas. 
A médio prazo, a tragédia descrita na fábula poderia se tornar real, pois alguns dos episódios descritos já estavam acontecendo em cidades dos Estados Unidos da América (EUA) provocados pelo uso intensivo do Diclo - difenil - tricloroetano (DDT), um agrotóxico persistente no meio ambiente que contaminava e se acumulava nos organismos, sendo repassado via cadeia alimentar.
Travou-se uma verdadeira guerra contra a utilização de DDT, a nível mundial, e sua proibição nos EUA se deu na década de 70. As consequências do DDT sob os organismos e o ambiente são constatadas até hoje. O estudo realizado em 2014, pela equipe de Jason Richardson, da Universidade Rutgers (EUA), encontrou níveis elevados de subprodutos do DDT no sangue de portadores de Alzheimer em fase avançada. Os participantes do estudo tinham em média 74 anos.
Apesar disso, o composto ainda é usado legal ou ilegalmente em vários países. No Brasil, maior consumidor de agrotóxicos do mundo, a proibição chegou a passos lentos. O DDT foi retirado do mercado brasileiro por meio de três medidas, a saber: a proibição para o uso agrícola, em 1985; a proibição para o uso em campanhas de saúde pública, em 1998; e a Lei nº 11.936/09, proveniente do projeto de lei (PLS 416/99) do senador Tião Viana (PT-Acre), sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no ano de 2009. Essa Lei proíbe a fabricação, a importação, a exportação, a manutenção em estoque, a comercialização e o uso de DDT, no país.
Embora existam esforços para minimizar a problemática, a utilização excessiva de agrotóxicos no Brasil persiste. Os filmes “O veneno está na mesa I” (2011) e “O veneno está na mesa II (2014)” de Silvio Tendler, abordam a questão de forma coerente. Os relatos e as contribuições de estudiosos enriquecem o conteúdo dos filmes, reforçando a necessidade de posicionamento por parte da sociedade.
Os perigos da má utilização dos agrotóxicos assemelham-se aos infortúnios dos inseticidas sintéticos da década de 60. Quando aplicados, os agrotóxicos podem atingir o solo e as águas, serem espalhados por meio do vento e das águas das chuvas. As propriedades dessas substancias podem sofrer alterações e formar subprodutos com propriedades diferentes do produto original, provocando danos ao meio ambiente. Por isso, o uso de agrotóxicos intensifica os riscos à saúde humana e ambiental, podendo provocar a contaminação do trabalhador, das populações que residem no entorno das lavouras e dos animais. Ainda assim, os produtores rurais continuam a utilizar os agrotóxicos indiscriminadamente.
Esse fato está associado aos fatores socioeconômicos que dificultam a execução de alternativas possíveis, como a substituição da produção tradicional de alimentos pela produção de orgânicos. A principal dificuldade para produção de orgânicos em grande escala consiste no pouco incentivo por parte dos governantes, o que torna o custo de produção alto e acaba por refletir no preço dos produtos.  Na tentativa de agradar aos grandes empresários, de atender as exigências do “mundo” econômico e de suprir as necessidades da população, por meio do barateamento dos gêneros alimentícios, a qualidade dos alimentos acaba ficando em segundo plano.
Ao cidadão esclarecido cabe manter o controle de sua alimentação, evitando o consumo de alimentos com grande quantidade de agrotóxicos e proteger, assim, sua saúde e a saúde de sua família.
 Em Itabaiana – SE a situação não é diferente, sendo que uma de suas principais atividades econômicas, é a agricultura tradicional. As pequenas propriedades agrícolas itabaianenses oferecem uma grande diversidade de produtos como mandioca, batata doce, frutas, hortícolas, cereais e verduras que abastecem o Estado.
A preocupação com problemática ambiental dos agrotóxicos do município motivou ações voltadas à agroecologia. Segundo informações da Associação dos Produtores Orgânicos do Agreste (ASPOAGRE), associação composta por 18 sócios agricultores dos municípios de Itabaiana, Areia Branca e Malhador, desde 1986 esse tipo de produção tem sido realizado. Os produtos orgânicos produzidos pela ASPOAGRE são revendidos, inclusive, em Itabaiana na Feira de Produtos Orgânicos, realizada com o apoio da Secretaria Municipal de Agricultura.
Em 2013, Itabaiana foi o primeiro município do interior sergipano a implantar o programa de Rastreamento e Monitoramento de Alimentos (RAMA). O RAMA é promovido pela ABRAS, com o apoio da ANVISA e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O programa acompanha a cadeia produtiva, possibilitando aos consumidores a obtenção de informações sobre a origem de alimentos como banana, laranja, alface, repolho entre outros.
Outra iniciativa relevante é o trabalho de Educação Ambiental com hortas escolares realizado em algumas escolas municipais da zona rural de Itabaiana, por meio do Programa Mais Educação do Ministério da Educação (MEC) e por iniciativa das equipes diretivas, professores e alunos, como foi observado na pesquisa de Souza (2014). Esse tipo de iniciativa carece de maiores incentivos e aprofundamento.
O trabalho com alimentação e hortas caseiras também é realizado, no município, pela Pastoral de Criança, organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nesse trabalho, os líderes voluntários recebem capacitação para promoção da alimentação saudável junto as famílias acompanhadas. As orientações vão desde os cuidados de conservação dos alimentos até o passo a passo de como fazer uma horta caseira, sem a utilização de agrotóxicos.
Ainda sem solução definitiva para o problema agrotóxicos, a garantia do direito à saúde de produtores, consumidores e do ambiente exige o aumento na fiscalização, por parte dos órgãos competentes, tendo em vista o cumprimento da Legislação. Além disso, a sensibilização para o cuidado individual e coletivo no meio ambiente torna-se indispensável. Não podemos permitir que a vozes da primavera sejam silenciadas.



REFERÊNCIAS
ANVISA. Lei proíbe agrotóxico DDT em todo o país. Disponível em http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2009/200509.htm

AGROECOLOGIA EM REDE. Associação dos Produtores Orgânicos do Agreste (APOAGRE). Disponível em

ABRAS. RAMA: Itabaiana é o primeiro município do interior de Sergipe a monitorar alimentos. Redação Portal ABRAS. Disponível em

BRASIL. Lei 7.802 de 1989. Disponível em: www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7802.htm

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Segurança Química. Agrotóxicos. Disponível em http://www.mma.gov.br/seguranca-quimica/agrotoxicos

CARSON, R. Primavera Silenciosa. Tradução de POLILLO, R. Edições Melhoramentos. São Paulo, 1969.

PASTORAL DA CRIANÇA. Alimentação e hortas caseiras na Pastoral da Criança. Curitiba, 2009. 64p.: il. col.

Rachel Carson's Biography. Disponível em http: www.rachelcarson.org .

SOUZA, S.M. dos S. As ações de Educação Ambientais em escolas rurais de Itabaiana-SE. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Sergipe, Aracaju-SE, 2014. Disponível em http://bdtd.ufs.br//.

TENDLER, S. O veneno está na mesa I (filme). Disponível em   https://www.youtube.com/watch?v=SHkRoIvahpg&spfreload=10

TENDLER, S. O veneno está na mesa II (filme). Agroecologia para alimentar o mundo com soberania. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4

VIERA, C. L. Pesticida e Alzheimer. Revista Ciência Hoje. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2014/03/pesticida-e-alzheimer

INFONET NOTÍCIAS. Itabaiana ganha feira de hortaliças sem agrotóxicos. Disponível em http://www.infonet.com.br/cidade/ler.asp?id=13105&titulo=cidade#












[1] Os seres heterótrofos são incapazes de produzir seu próprio alimento, por conseguinte, se alimentam de outros seres vivos (plantas e animais). 

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