terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O QUE TEM NO AR QUE RESPIRAMOS?



Publicado no Jornal Carta Serrana.
  Informação ao Pé da Letra.  
Edição 33. Setembro de 2015.
Direção Geral: Olivério Chagas


Quem não fugiu das aulas de Ciências sabe que o ar atmosférico é formado pela mistura de vários gases e vapor de água. Mas no ar que respiramos existem muito mais ingredientes do que sonha a nossa vã filosofia.
Os principais gases que formam a atmosfera são oxigênio, nitrogênio, gás carbônico e gases nobres, presentes no ar atmosférico em menor quantidade. Partículas de poeira e poluentes como material biológico, vapor e partículas sólidas também fazem parte do ar que inalamos todos os dias.
A intensificação da industrialização no século XIX contribuiu para o aumento da poluição do ar. Segundo Antônio Leite Alves Radicchi, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, a poluição do ar pode ser definida como a liberação na atmosfera de qualquer substância que altere a constituição natural do ar, afetando negativamente espécies animais, seres humanos e vegetais, ou provocando modificações físico-químicas indesejáveis em espécies minerais.
De acordo com a Resolução CONAMA n° 03/1990, considera-se como poluente atmosférico toda e qualquer forma de matéria ou energia com intensidade e em quantidade, concentração, tempo ou características em desacordo com os níveis estabelecidos, e que tornem ou possam tornar o ar impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde, inconveniente ao bem-estar público, danoso aos materiais, à fauna e à flora ou prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e às atividades normais da comunidade.
Um exemplo clássico de poluição do ar ocorreu em 1952, em Londres. O desastre ficou conhecido como “O Nevoeiro de 1952” ou Big Smoke. O impacto ambiental foi provocado pela queima desenfreada de carvão contendo enxofre e metais pesados. A camada de ar frio fez com que os poluentes se acumulassem. O acúmulo de fumaça e partículas de carvão foi se intensificando; aproximadamente 12 mil pessoas morreram e 100 mil ficaram doentes. As mortes foram provocadas por infecções do trato respiratório (bronquite e pneumonia) e pela obstrução das vias respiratórias.
Para se ter uma ideia, a poluição atmosférica causou a morte de mais de 7 milhões de pessoas no mundo em 2012. O estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou que os problemas relacionados à poluição do ar têm matado mais do que a AIDS e a Malária.
Segundo a OMS é aceitável um máximo de 50 microgramas de partículas por metro cúbico de ar por dia. No Brasil, esse limite é de 150. O estudo realizado aponta que, no Rio de Janeiro, 36 mil pessoas morreram entre 2006 e 2012 por doenças respiratórias ou cardiovasculares ligadas à poluição do ar. No estado de São Paulo, foram 99 mil mortes entre 2006 e 2011.
Em São Paulo, aproximadamente 68,5 mil pessoas deram em entrada nos hospitais com problemas atribuídos à poluição ar em 2011. As internações e mortes custaram mais de R$ 246 milhões ao sistema público e privado de Saúde, afirmou a médica Evangelina Vormittag, diretora executiva do Instituto Saúde e Sustentabilidade e coordenadora da pesquisa.
Além disso, a poluição do ar pode estar relacionada ao aumento do número de casos de Acidente Vascular Cerebral (AVC). De acordo com pesquisadores do Centro Médico Langone, Hospital da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, a poluição teria relação com o estreitamento das artérias responsáveis por transportar o sangue arterial do coração para o cérebro. O entupimento de tais artérias provoca o AVC.
A liberação de poluentes para atmosfera é originária de fontes naturais como a fumaça emitida das queimadas naturais, atividade vulcânica e microbiológicas nos oceanos, entre outras. Entre as fontes antropogênicas (provocadas pelas ações humanas) estão as fábricas, usinas de energia, carros, motoros, queimadas, aerossóis, sprays etc.
Em Sergipe as fontes que mais poluem o ar são antrópicas e estão relacionadas às atividades industriais, exemplo disso são os povoados Machado, Estivas e Estivas II, localizados em Laranjeiras, e Nossa Senhora do Socorro, região na qual está inserido um grande complexo industrial cimenteiro, segundo avaliação da poluição atmosférica realizada por Ferreira e colaboradores em 2014. Os resultados do estudo mostraram a necessidade de se efetuar estudos epidemiológicos para proteção da saúde e estabelecimento de medidas mitigadoras para essa população exposta a concentrações mais elevadas de poluentes.
Em Itabaiana, as principais fontes de poluição de ar também estão relacionadas às atividades industriais. Dentre as quais se destacam as cerâmicas, que são tradição no município. A queima de lenha utilizada nos fornos das cerâmicas produz fuligem e a liberação de gases tóxicos para a atmosfera, o que provoca problemas de saúde na população.
Há cinco anos, a Promotoria de Justiça de Itabaiana do Ministério Público do Estado de Sergipe (MPE) realizou Audiência Pública com proprietários de panificadoras e supermercados de Itabaiana, a fim de conter a emissão de poluentes atmosféricos (fumaça e material particulado) provenientes da queima de lenha sem a utilização de sistema de controle. Os 25 estabelecimentos comerciais ficaram cientes das medidas que precisariam adotar para regularizar o seu funcionamento e encerrar a poluição atmosférica causada. Para se adequarem aos padrões da legislação ambiental em vigor.
Na época, a Associação dos Ceramistas de Itabaiana convidou a Administração Estadual do Meio Ambiente (ADEMA) para um bate-papo junto aos empresários do segmento a fim de somar esforços a favor da celeridade no licenciamento ambiental das mais de 30 cerâmicas do município. A reunião ocorreu na Associação Comercial de Itabaiana.  O presidente da Adema, Wanderlê Correia, presente na reunião ao lado das diretorias de Licenciamento e a de Fiscalização, além da Procuradoria Jurídica do órgão ambiental, revelou não medir esforços para ajudar os ceramistas na celeridade das licenças.
Até o presente momento não foram encontradas informações atuais sobre a qualidade do ar em Itabaiana. Espera-se que os problemas antes observados tenham sido resolvidos e que os novos problemas sejam mitigados.
A manutenção da qualidade do ar é indispensável à saúde dos seres vivos e essencial à vida, logo precisa ser cuidado. Quem sabe um dia, pela união de nossos poderes, cuidar do ar que respiramos, da água que bebemos e dos alimentos que consumimos faça parte de nosso cotidiano.





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